A alienação

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segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Felicidade, a Esperança, a Filosofia, e a tragédia humana



Luis Felipe Pondé escreveu hoje mais um artigo, como sempre um excelente texto filosófico, vou coloca-lo a seguir e depois fazer comentários sobre o assunto.

Luis Felipe Pondé
'Esperança do Mundo'

"Nunca confiei na felicidade", diz o personagem de Robert Duvall no filme "Tender Mercies" ("A Força do Carinho", título brasileiro bem infeliz para o filme), papel com o qual ganhou o Oscar de melhor ator em 1983.
O filme narra a derrocada de um cantor de música country e sua sofrida redenção, graças ao amor e generosidade de uma mulher.
No filme, salta aos olhos o deserto do Texas, a solidão de todas as planícies e a total ausência de qualquer metafísica barata, coisa comum hoje no cinema, seja ela moral, psicológica, ambiental ou política.
O homem e a mulher são seres abandonados no mundo e devem cuidar de suas vidas porque ninguém mais o fará.
Aliás, por falar em metafísica, a pior é a política.
Mas da política trato apenas por obrigação profissional, porque, como diz Albert Camus nos seus "Cadernos" (o primeiro tem como título "Esperança do Mundo"), ouvindo aqueles que se dedicam à política, podemos apenas concluir que as pessoas se importam pouco com esta parte das suas vidas, uma vez que todos na política mentem.
Acrescentaria, além dos políticos profissionais, os intelectuais que a ela se voltam como redenção do mundo e forma de obrigar os outros a viverem de acordo com os delírios que alimentam em seus gabinetes.
Enfim, no fundo, a política pouco me interessa.
Trato-a assim como quem deve cuidar de uma ferida —do contrário ela se infectará.
Noutro filme, "Alabama Monroe" (2012), do diretor Felix van Groeningen, a personagem feminina Elise, interpretada por Veerle Baetens, diz algo semelhante ao final: "Sempre soube que tudo aquilo não podia durar, porque a felicidade sempre acaba".
Referia-se ela ao amor por seu marido Didier e pela pequena filha morta.
Sinto-me em casa quando ouço pessoas dizerem coisas assim.
Pois se existem apenas "três ou quatro atitudes diante do mundo", como dizia em seu "Breviário da Decomposição" Emil Cioran, filósofo romeno indispensável para quem suspeita que os trágicos gregos são quem tem razão na filosofia, esta é a minha.
E seguramente a dele.
E também a de Camus.
Na mesma obra, Cioran faz um diagnóstico preciso: "A obsessão pelos remédios marca o fim de uma civilização, e, pela salvação, o fim da filosofia".
Por isso ele afirma que desistiu da filosofia quando viu que em Kant não havia nenhuma tristeza.
Os filósofos, diz Cioran, quase todos acabam bem, prova máxima contra a honestidade deles.
Sempre sinto um cheiro de mesquinharia quando ouço alguém falar de uma nova dieta.
A vida, talvez seja esta sua maior tragédia, se apequena quando não é de algum modo dada em sacrifício.
Talvez seja isso que o cristianismo queira dizer quando afirma que só quando se perde a vida se ganha a vida.
E não há saída: somos a civilização da mesquinharia.
Até Cristo deve ser saudável.
Sei que Camus considerava o suicídio o único problema filosófico ("O Mito de Sísifo").
E sei também que ele considerava um milagre um momento em que não tivesse que falar de si mesmo (caderno "Esperança do Mundo").
Detalhe: Camus usa expressões como "milagre", conhecia bem teólogos como Blaise Pascal e conceitos como o de "graça", citando-os com precisão.
Mas eu suspeito que um dos maiores problemas da filosofia, e certamente um dos maiores milagres na vida, para quem tem um temperamento que desconfia da felicidade (trágico), é justamente o problema que Camus diz "ser um bom título": a esperança do mundo.
Como ter esperança no mundo sem ter que abdicar da capacidade de vê-lo tal como é?
Por isso, sinto um halo de graça quando vejo a esperança visitar o mundo.
Afora as ilusões, só a generosidade é capaz de acolher a esperança.
Talvez o próprio Camus dê uma pista neste "Caderno", sendo ele um filósofo, e sabendo, como nós todos, que nós filósofos sofremos da vaidade intelectual como pecado capital.
Camus diz que "a obsessão em ter razão é a marca suprema de uma inteligência grosseira".
Portanto, talvez, a humildade, virtude capital para Camus, seja a esperança para a filosofia.
Ou, como dizia Santo Agostinho, o que falta ao filósofo é chorar.

Comentário:

Pondé nesse artigo mistura três temas, felicidade, filosofia e esperança, portanto, temos vários aspectos a considerar.

O problema da filosofia é que ela é feita por intelectuais, e estes, a maior parte deles, são seres alienados dominados pela ilusão de "mudar o mundo", como Pondé mencionou: "os intelectuais que a ela se voltam (a política) como redenção do mundo e forma de obrigar os outros a viverem de acordo com os delírios que alimentam em seus gabinetes." e " nós filósofos sofremos da vaidade intelectual como pecado capital.", exatamente, é isso que acontece.
Em vista disso a filosofia vive do trabalho de alguns poucos que não estão submetidos a essa desgraça.

A felicidade existe, é possível saborea-la, mas, a felicidade é como uma brisa suave que vem a vai em pouco tempo, seria um enorme egoísmo querer ser feliz todo o tempo!
Da mesma forma que é um enorme egoísmo querer viver eternamente ao lado de deus, a suprema felicidade.

A esperança é uma ilusão, mais ainda se formos ter esperança no mundo!
Ter esperança significa focar a vida no futuro e não no presente que se desenrola ao nosso redor, é quase uma fuga, não se deve ter esperança, isso não quer dizer que não iremos fazer planos para o futuro, mas planos para o futuro são muito diferentes de esperança.

Dito isso em caráter geral, vou fazer algumas observações mais específicas sobre o texto de Pondé.
Nietzsche descobriu que existiu um divisor de águas na filosofia, esse divisor foram Socrates e seu discípulo Platão, antes deles a filosofia grega tinha como fundamento a tragédia que representava exatamente as condições da natureza e da vida no planeta, que desde a pré-história sempre foi cruel para todos os seres vivos e em especial mais cruel ainda com o ser humano com a aquisição da razão.
Depois de Socrates e Platão a filosofia teve como base a ilusão, o "mundo das ideias" de Platão, que tal qual o paraíso os humanos não fazem a menor ideia de onde esteja e se porventura existe, pois não passa de uma suposição, de uma ilusão.

 Tragédia grega - a realidade da vida humana

Essa concepção ilusória levou a filosofia a desembocar na ideologia, Rousseau ao dizer que "o ser humano nasce bom e que é a sociedade que o corrompe" deu início a ideologia que almeja destruir a sociedade e fundar um "mundo melhor" que nem mesmo sabe como seria.
A ideologia, que surgiu da filosofia ilusória, nada mais é que uma revolta contra a realidade do mundo por ela (a ideologia) incorporada na sociedade.
A ideologia nada mais é que ressentimento e ódio contra a vida da forma que ela é, cruel, seres semelhantes a estes que se deixam dominar por esse ódio, no passado (e ainda no presente), tentaram com a religião aplacar sua revolta, mas, por mais que rezassem deus permanecia mudo sem dizer uma palavra, devido a esse mutismo de deus, ao qual Karl Marx, que era cristão fervoroso até 17 anos, sentiu e se revoltou, a saída foi a ideologia destruidora - o socialismo, o marxismo, o comunismo, o anarquismo e a pregação da revolução e da destruição da sociedade por eles julgada como "má".

Para desgraça da sociedade essa ideologia subversiva e oculta, perseverante, nunca desiste da "luta" apesar dos inúmeros percalços e genocídios que causou, se infiltrou em todas as instituições da sociedade ocidental, na educação, nas instituições políticas e econômicas, na ONU, no FMI,, na midia, nas redes sociais, nas ONGs, está por toda parte e ameaça a humanidade de morte, e o pior, a humanidade alienada pela "educação" que recebeu não sabe dessa ameaça.

Entretanto, a questão não é em sua essência filosófica, é pessoal, Sartre descobriu dois princípios de suma importância:

1. Nos seres humanos aconteceu o surgimento da Angústia pela aquisição da consciência da morte, que aterroriza os seres humanos.
2. "O inferno são os outros.", ou seja, a desgraça toda não está em nós, está nos outros.

Livrarem-se destes dois enormes fardos é a chave para olhar e participar da tragédia humana sem se afetar e conseguir paz interior e dignidade, que são valores pessoais e não filosóficos.

Shakespeare já ensinou aos teólogos e filósofos: "Há mais entre o céu e a terra do que pressupõe vossa vã filosofia"... mas, a vaidade pessoal dos intelectuais é imensa e sempre renovada e eles jamais aprendem.


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